
Com um tirano na barriga
“Fulano tem um rei na barriga”, todos conhecem o dito e, sem dúvida, ao menos uma pessoa que se enquadra no tipo que ele procura representar. De igual maneira, há quem possua um tirano na barriga. Mesmo que nunca tenha ouvido a expressão, tenho certeza de que o leitor conseguirá apontar alguém com essa característica.
Esse tirano é também rei. Por vezes, crê ser um deus. O certo é que sempre corresponde a um déspota, mas nunca esclarecido (especialmente sobre si). Todavia, essa tirania só possui fundamento na mente do próprio indivíduo, repleta de megalomanias e delírios de poder.
Ele está em todo lugar, no trabalho, dentro de casa, nas repartições públicas, na direção das empresas privadas, pode até ser você. Só há um lugar em que não é capaz de o encontrar: no consultório de psicologia. Aí, jamais! O divã se transforma em uma verdadeira maca cirúrgica, a partir de onde o tirano será extraído.
Para comandar, não precisa da opinião alheia; afinal, se difere da dele, você está errado e é um ignorante. Em nenhuma hipótese, ouse discordar de Sua Alteza, a detentora da verdade universal e absoluta. Aliás, se há quem ainda acredite nesse tipo de verdade, são esses senhores, que não a veem na ciência ou em qualquer entidade religiosa, mas em si.
O ideal de humano, claro, é ele próprio, o arquétipo da perfeição. Os outros habitantes da Terra, vis e repletos de defeitos, são hierarquizados de acordo com a proximidade ou distância das características divinas representadas nele. Casos de flagrante diferença não serão aceitos pacificamente em seu reino; pelo contrário, o anormal e problemático terá de ser açoitado e inferiorizado cotidianamente.
Detentor do poder sobre tudo (poder outorgado e aclamado por ele mesmo), buscará reger o mundo, governando pela ordem e pelo arbítrio, como um autocrata. Casos de desobediência são julgados como lesa majestade. Quem tentar seguir um caminho diferente do decretado, estará sujeito à fúria do tirano.
Sabedor de todas as verdades, não se equivoca nas suas ordens, que devem ser acatadas e cumpridas. Quem tem um tirano na barriga cobra obediência. Não é para menos, imagina-se em uma posição de direção e mando. Anda como um capataz a vigiar os subordinados; com estes, só se comunica de cima.
Nada pode se suceder no espaço sob sua jurisdição sem que passe por ele. No seu domínio, tudo precisa estar nos conformes (vale dizer, nos seus conformes). Não espirre quando o ser supremo não quiser, ainda que não saiba da indisposição desse sujeito para tão pequeno e incontrolável ato.
O cuidado é sempre necessário e deve ser constante, não se sabe o que pode despertar aquela ira. Todavia, isso não basta, a nação vive ao sabor das flutuações do ânimo da potestade. Ao acordar, reze para que ele tenha despertado bem.
Não é só o referido procedimento cirúrgico que corresponde ao motivo pelo qual não vemos esses sujeitos no psicólogo. Quem carrega um tirano na barriga nunca irá aceitar a necessidade de ser acompanhado por um profissional dessa área. Aliada ao preconceito que ainda existe em torno da terapia, a empáfia dessas pessoas não permite isso.
Admitir que possui problemas, aceitar que carece de ajuda? De maneira nenhuma. No tirano, abunda a sobranceria. Seus devaneios de superioridade não permitem qualquer ato que possa parecer fraqueza ou rebaixamento ao nível dos mortais. Aquela suposta posição cimeira precisa ser defendida a qualquer custo e a todo momento, inclusive diante dos casos mais fúteis e que não trazem nenhum questionamento.
No fundo, o tirano todo-poderoso sente sua enorme fragilidade.













